Osvladir Custódio - Psiquiatria

Sobre mim

Osvladir Custódio • 2 de outubro de 2021

"Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino". 
 
(Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis).

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Foi há muito tempo, numa livraria, ou numa loja falida da rua Coronel Oliveira Lima, esquecida, como muito que se viveu... Apenas sei que não devia ter mais de 10 anos, era bem pequeno e carregado pelas mãos seguras de minha mãe. 

E eu me encantava com o caos. As pessoas grandes se acotovelavam. Sobre o balcão, havia centenas de livros sujos e coloridos, cada um por uma pechincha ou, pelo menos, assim anunciava o vendedor com a voz empostada. 

Não conseguia ler os títulos. Peguei um livro sob o olhar severo de minha mãe, que murmurava “tenha cuidado porque isso não é seu”. Estava feliz em tê-lo em minhas mãos. Não sei se minha mãe não quis perder a oportunidade ou alegrar-me, deixou-me escolher ao acaso, e, desconhecendo o conteúdo, disse: “vamos levar”...

Era um livro, cujo título já não me lembro, que tratava de psicanálise e escrito por um médico. Não entendia muito do que estava escrito, mas as frases pareciam articular um assunto muito importante. Aquele livro me inspirou a considerar a escolha de ser inicialmente um psicoterapeuta e, mais tarde, a psiquiatria como especialidade médica. 

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"Eu sou é eu mesmo. Divirjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."
 (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

Quando descascava cana com faca cega e percebia que o tempo passava lentamente, comecei a trabalhar em um escritório de contabilidade e administração. Entre 14 e 18 anos, fiz de tudo um pouco: office boy, arquivista, relações públicas, chefe de seção e administrador de situações difíceis. 

A educação formal fiz em escolas públicas. Cheguei ao fim do curso médio em lamentável estado de ignorância. Após cursinho, na Tamandaré, passei no vestibular de algumas faculdades de medicina. Com os contos de Borges, Guimarães Rosa e Lispector, descobri o prazer da leitura, a importância da boa escrita, soltei um pouco das amarras e deixei de lado o medo para olhar um pouco mais do fundo da Caverna.

Era esquálido. O céu estava limpo: não havia nenhuma nuvem acima de nós. Mantinha minha extrema curiosidade sobre como os outros pensavam. 

Na faculdade, carinhosamente, conhecida pelos acadêmicos e funcionários como “Casa de Arnaldo”, fiz bons amigos e hoje, mesmo sem os ver, os tenho presentes. Muitas pessoas me motivaram oferecendo bom ambiente, propósito, aprendizado e autonomia. Entre os professores, destaco o saudoso e brilhante professor A. dos Santos Rocha, o cuidadoso e gentil oncologista Wadih Arap, a presente e amigável clínica geral Rosangela Janoni, a acessível neurofisiologista Sara Joyce e o notável neurologista Dr. Nitrini.

Depois de titubear, sem reprovações, completei as 12 mil horas do curso de medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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“Sim ou não? Estarei completamente doido ou oscilarei ainda entre a razão e a loucura?” 
(Insônia, Graciliano Ramos)

Em uma noite de insônia, tomei ciência de “Um Copo de Cólera” (Raduan Nassar) e, ao mesmo tempo, a decisão de tornar-me psiquiatra. Fui aprovado em todos os concursos que fiz. Escolhi fazer minha residência em psiquiatria na Escola Paulista de Medicina. 

Foram dois anos com intensa interação com pacientes, estagiários, psiquiatras, psicólogos, neurologistas, pediatras e outros médicos em geral. Tenho saudades das reveladoras supervisões do saudoso professor Ladislau e das prolongadas e eruditas passagens de plantão neurológico do professor Gilmar. 
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Após o término da residência, comecei trabalhar em serviços de emergência psiquiátrica e de intervenção em crise. Escrevi um projeto de pesquisa sobre avaliação em intervenção em crise. O professor Miguel Jorge orientou-me incansavelmente na difícil construção da prosa científica. O passatempo era a segunda filosofia de Wittgenstein com seus cadernos e “jogos de linguagem”. 

Com o financiamento por um órgão de fomento à pesquisa, as portas da pós-graduação "sensu stricto" abriram-se para mim. Fiz meu mestrado em psiquiatria na Unifesp. Aprendi bioestatística da classificação de variáveis a regressões multivariadas. A estatística não-paramétrica foi-me revelada pelo excelente professor Neil. As leituras filosóficas e sobre metodologia científica tornaram-se obrigatórias: “A lógica da Pesquisa Científica” de Popper, “A Estrutura das revoluções científicas” de Kuhn, ‘Research Methods in Psychiatry” de Tyrer, entre outros. Na operação da divisão dessas leituras, sobraram grandes restos em dúvidas. 

Quando terminei a pós-graduação, abri meu consultório particular.

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“Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.” (As Ruínas Circulares, J.L. Borges)

Deixei a emergência psiquiátrica após supervisionar dezenas de residentes, atender centenas de pacientes e discutir com colegas médicos milhares de casos. Ainda sob orientação do Professor Miguel, mais tarde, desenvolvi um projeto para a criação de um banco de dados de um pronto socorro psiquiátrico com imputação de dados, descrição da população e estudo sobre tomada da decisão: a verdadeira despedida. Esse banco contava com 34.216 atendimentos psiquiátricos e 21.274 indivíduos identificados.

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"Não sei porque, mas ninguém conversa mais comigo. E mesmo quando estou junto das pessoas, elas parecem não se lembrar de mim. 
Afinal não tenho culpa de ser velha” (A Partida do Trem, Clarice Lispector)

Há quem diga que “paixão não se explica, acontece”. Era muito apegado à minha avó materna e, em alguma extensão, isso pode ter motivado meu interesse pelo atendimento de idosos. 

Aproximei-me definitivamente da neuropsiquiatria geriátrica pelo convite da Dra. Márcia para participar de um ambulatório da UNIFESP. Formamos uma equipe e iniciamos, ao longo de mais de duas décadas, nesse assunto centenas de residentes em geriatria, psiquiatria, medicina de família, clínica geral e especialistas em gerontologia. Sou extremamente grato às pessoas que me ajudaram nessa missão: Andrea F., Marsal S., Marcelo P., Kátia N., Carla S. e João E., entre muitos outros. 

Com a perspectiva do envelhecimento populacional, em 2010, residentes de psiquiatria começaram a ter carga horária obrigatória em psiquiatria geriátrica e iniciou-se um programa de residência de quarto ano em psicogeriatria. 

Hoje coordeno este programa de psicogeriatria.  Ajudei a formular o currículo, o processo seletivo, a supervisão e a avaliação destes residentes. 
  
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“Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo apinhado de Funes havia apenas detalhes, quase imediatos ”.  
(Funes, o memorioso, Jorge Luis Borges)

Aprendi outro modelo para o entendimento da psicopatologia quando fiz a formação teórico-prática em terapia cognitivo-comportamental, no Instituto de Terapia Cognitiva - ITC, sob a batuta da professora Dra. Ana Serra. Isso ajudou a mudar, em certa medida, a forma que vejo minha própria vida. Tive supervisões clínicas memoráveis com o Arnaldo de Bauru e aulas com notáveis palestrantes em terapia cognitiva: Freeman, Dattilio, Wright, Sokol, Morrow e Burns. 

Tenho interesse em patologias do sono como, por exemplo, insônia, apneia do sono, síndrome de pernas inquietas, movimentos periódicos de pernas e distúrbio comportamental do sono REM. Sou proficiente em terapia cognitivo-comportamental para insônia,

Estudei terapia comportamental, especialmente, as psicoterapias de terceira onda. Participei da tradução do Manual de Aplicação,  legendei  vídeos de treinamento e treinei residentes em Ativação Comportamental para depressão com o modelo desenvolvido pelo grupo de Lejuez et al (2001). Conheci outros modelos de Ativação comportamental para Depressão : o de Beck et al (1979), Lewinsohn et al (1979), Martell et al (2001) e Abreu e Abreu (2020). Fiz os treinamentos de Ativação Comportamental (BA)  do IACC- Sul com Abreu-Abreu e o desenvolvido pelo " Centre for Research on Dissemination at Oxford"  com Christopher Martell.

Fui professor no curso de psicofarmacologia para residentes de psiquiatria durante duas décadas e, mais recentemente, de introdução à neuroimagem com ênfase na neuroanatomia para residentes em psicogeriatria. Organizei cursos de psiquiatria geriátrica e, eventualmente, coordeno seminários. 

Colaborei com a supervisão da aplicação de bateria neuropsicologia e da confecção dos relatórios neuropsicológicos. Orientei monografias da residência de psicogeriatria, geriatria e gerontologia por mais de uma década.

Escrevi projetos de pesquisa, artigos, monografia e capítulos de livros sobre depressão, ansiedade, psicose, transtornos do sono, interação medicamentosa, problemas do sono, emergência psiquiátrica, intoxicação por psicofármacos e transtornos comportamentais e psicológicos associados à demência. Participei de pesquisas com publicações nacionais e internacionais. Tenho prêmios em apresentações de congresso e de excelência acadêmica.

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O currículo detalhado encontra-se no endereço : http://lattes.cnpq.br/7414699603121540


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